Parafraseando a música de Gilberto Gil, encaminho esta reflexão ao processo de auto-observação, não como adesão a doutrinas ou religiões, mas como uma possibilidade concreta de aprofundamento da experiência consciente. Trata-se de um movimento de retorno àquilo que somos antes da identificação automática com pensamentos, emoções e narrativas internas , um contato direto com o Ser vivido.
O início da libertação consiste em compreender que não somos idênticos ao fluxo incessante da mente. Essa compreensão não implica a existência de um “outro eu” que observa de fora, mas o surgimento da própria consciência em estado de presença, quando ela deixa de estar capturada pelo automatismo mental. Nesse estado, torna-se possível observar o pensador, os pensamentos e as emoções como fenômenos que surgem e passam no campo da experiência.
Auto-observação não é dissociação, mas um ato de atenção lúcida. É a consciência voltando-se sobre si mesma, criando um intervalo no qual o pensamento deixa de governar automaticamente a ação. Husserl descreveu esse movimento como uma suspensão da atitude natural (epoché), não para negar o mundo, mas para vê-lo com maior clareza. Merleau-Ponty, por sua vez, mostrou que essa consciência não é abstrata: ela é corporal, situada, encarnada no Aqui e Agora.
Quando silenciamos, ainda que por instantes, o diálogo mental compulsivo, não abandonamos o mundo; ao contrário, tornamo-nos mais presentes a ele. Podemos perceber o que se passa em nosso interior ao mesmo tempo em que permanecemos plenamente atentos ao que fazemos. Essa atenção ampliada aumenta a concentração e revela o modo como pensamentos e emoções emergem em determinadas situações.
Ao nos auto-observarmos em interações cotidianas, por exemplo, diante de uma crítica percebida como injusta, é possível notar o surgimento quase imediato de reações emocionais e pensamentos defensivos. Essas reações, mesmo quando não exteriorizadas, revelam o funcionamento do ego psicológico. O que as percebe não é um sujeito separado, mas a própria consciência quando não está identificada com o papel que desempenha. Nesse instante, evidencia-se a diferença entre o fluxo reativo e a presença que o reconhece.
Contudo, essa lucidez não é permanente. Logo após o lampejo de observação, frequentemente retornamos ao automatismo, assumindo novamente os papéis e narrativas que acreditamos ser nossa identidade. Ainda assim, o simples fato de perceber esse retorno já é sinal de consciência desperta. A observação, portanto, constitui uma das chaves para o enfraquecimento do domínio do ego e para a expansão da consciência.
O célebre axioma cartesiano “Penso, logo existo” consolidou uma interpretação problemática ao identificar o Ser com o pensamento. Ao contrário disso, autores como Eckhart Tolle, em diálogo indireto com tradições contemplativas e também com a fenomenologia, afirmam que a libertação começa com a desidentificação da mente. Cada espaço criado no fluxo do pensamento permite que a consciência se manifeste com maior clareza.
A mente é um instrumento extraordinário quando utilizada com discernimento; quando opera de forma automática, porém, torna-se fonte de sofrimento. Esse entendimento não é exclusivo da espiritualidade contemporânea, mas também do budismo e de diversas tradições filosóficas. Grande parte do sofrimento humano nasce da ausência de atenção, da pressa e da identificação irrefletida com os pensamentos.
Ser livre para pensar não significa eliminar o pensamento, mas não ser governado por ele. Isso exige presença no momento atual, discernimento sobre o que permitimos adentrar nossa mente e vigilância sobre a facilidade com que ela vagueia. O Aqui e Agora não é um refúgio místico, mas o solo vivo onde a consciência pode se reconhecer como aquilo que sente, percebe e age , antes de se perder em suas próprias construções mentais.
Roni Martins