A Ética dos Gatos
No fim da rua, onde todos os gatos do bairro se encontravam ao cair da noite, parecendo reunião para decidir os rumos secretos do mundo, morava um filósofo, uma pessoa comum, dessas que passam despercebidas aos olhos do mundo, mas que guardam universos inteiros dentro de si. Dividia a casa com a filha do meio, e era ela quem tinha um gato de pelo amarelo-claro, rajado de bege, bonito como um dia bem vivido. Gordo na medida exata, limpo, de olhos atentos e músculos tensos de vitalidade. Era o esplendor doméstico da vida bem cuidada. Ali, naquele corpo felino, a existência parecia ter dado certo.
No bairro, porém, havia outro gato. Quase um espelho distorcido do primeiro. As mesmas cores, a mesma forma geral, agora cobertas por poeira e lodo do bueiro, o pelo embolado, as costelas insinuando-se sob a pele cansada. Um gato de rua, esfomeado, desconfiado, sobrevivendo por teimosia. O filósofo o chamava, com uma ironia quase inconsciente, de Primo Pobre, referência direta ao gato da casa, o primo rico, herdeiro da ração Premium e do afeto cotidiano.
Curiosamente, embora fosse alguém que se considerava amoroso com os animais, e de fato o era, recolhendo alguns, alimentando outros sempre que podia, com esse gato específico não houve tentativa de aproximação. Ao contrário, quando surgia, era enxotado. Talvez pelo cheiro, talvez pela aparência, talvez pelo incômodo silencioso de ver ali uma versão degradada daquilo que se ama quando está limpo, bonito e inteiro.
Em outros dias, surgia ainda um terceiro personagem. Um gato de pelagem amarelo-escura, entrecortada por listas brancas. Também parecia esfomeado, mas havia nele algo diferente, uma elegância discreta, uma dignidade quase estética. Aproximava-se, esfregava-se nas pernas, miava baixo, como quem pede sem exigir. Recebia comida, carinho e palavras. Ganhou um nome: Zé Ninguém. Não por maldade, mas por hábito. Quando o filósofo estava bem, Zé Ninguém comia e era acolhido. Quando não estava, era apenas mais um a ser enxotado.
Havia ainda o Gato Preto, feio como um improvável cruzamento de filhote de cobra-d’água com urubu, mas dono de uma autoestima inabalável. Achava-se o príncipe da rua, desfilava com galhardia felina e ainda passava o laço nos gatos que ousavam questionar seu reinado. Para esse, o filósofo não dava a menor confiança; ao primeiro sinal de aproximação, já ligava a mangueira, com o firme e quase solene propósito de lhe oferecer um memorável banho d’água.
Não podemos esquecer o Gato Cinza, um gato de bom porte, dono de uma juba quase real. Parecia atrevido demais, coisa típica de gato que sabe possuir um humano que lhe compra sachê todos os dias. Sentava-se no meio da rua e ficava encarando as pessoas, como se estivesse filosofando sobre a quais gatos aquelas pessoas pertenciam. Seu olhar atrevido deixava claro que não estava pedindo nada. Esse gato o filósofo respeitava, pois, afinal, como ignorar um gato que pensava?
Foi num desses dias banais, desses em que nada acontece e, por isso mesmo, tudo pode acontecer, que a consciência começou a se alargar. Ao observar os cinco gatos, algo incomodou. O amor parecia obedecer a critérios silenciosos. Ajudar não era apenas uma questão de necessidade, mas de aparência. A beleza suavizava o coração; a feiura e a sujeira o endureciam. O que era belo inspirava cuidado. O que era decadente provocava afastamento.
Refletiu que Platão já suspeitava disso quando falava do poder do belo como aquilo que nos eleva ao bem. Mas talvez tenha sido honesto demais com o ideal e ingênuo com o humano. Pois, na prática, o belo nem sempre conduz ao bem; muitas vezes apenas o facilita. O feio, ou melhor, aquilo que foi privado da beleza, não desperta compaixão, mas repulsa, como se a miséria fosse uma falha moral e não uma circunstância.
Nietzsche diria que o ser humano ama aquilo que afirma a vida: força, saúde, vitalidade. O Primo Rico afirmava a vida. O Primo Pobre a negava, lembrando a fragilidade, o abandono, a queda. E o olhar se desviava, como se negar o outro fosse uma forma de negar a própria possibilidade de decadência.
Mas foi talvez em Emmanuel Levinas que encontrou o golpe mais duro. O rosto do outro, especialmente o rosto ferido, é um apelo ético. Ignorá-lo é falhar não por crueldade explícita, mas por indiferença. O Primo Pobre era esse rosto. E foi justamente ele quem não recebeu ajuda.
Nesse instante, a percepção ultrapassou os gatos.
Quantos Primos Pobres existem entre nós? Pessoas cuja sujeira, desânimo, aparência cansada ou vida quebrada as tornam invisíveis ou incômodas? Quantos Zés Ninguém recebem afeto apenas quando estamos bem, quando sobra tempo, quando a empatia não custa muito? E quantos Primos Ricos, belos, articulados, limpos, bem-sucedidos, recebem amor quase automático, como se o merecessem apenas por existir?
O filósofo não se tornou melhor naquele momento. Não correu atrás do gato de rua nem fez promessas heroicas. Mas algo essencial mudou: a consciência. Percebeu que a crueldade humana raramente se manifesta como ódio; ela se apresenta como seleção. Selecionamos quem merece cuidado, quem merece escuta, quem merece existir perto de nós.
E isso, pensou, talvez seja a forma mais perigosa de injustiça: aquela que se pratica sem perceber, acreditando-se bom. Naquele dia, ao ver o Primo Rico dormir tranquilo e o Primo Pobre desaparecer na esquina, ficou claro que a ética começa onde a beleza termina. E que ampliar a consciência é, antes de tudo, aprender a não amar apenas o que é agradável aos olhos, mas o que é urgente à alma.
Roni Martins
Roni Martins
Enviado por Roni Martins em 01/01/2026