Roni Martins
A pedra que não rola encontra a água que não flui. Juntas discutem o futuro das folhas que não caem.
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Textos
Melissa Martins, o Amor que Vê Além

Melissa brincava no balanço, seus cabelos castanhos voando ao vento, quando seus olhos se fixaram em um homem sentado em um banco próximo. Ele aparentava ter mais de 50 anos, a pele escura marcada pelas intempéries, e a barba por fazer denunciava dias de abandono. Suas roupas, surradas e com sinais de terem sido usadas como cobertor em noites frias, provavelmente carregavam o cheiro da rua, mas não escondiam a altivez de quem se recusa a ser subjugado pelas circunstâncias. Seus olhos, apesar da tristeza que os habitava, mantinham um brilho resiliente, como se guardassem a chama de uma dignidade inabalável.

Havia algo naquele homem que despertava em Melissa um profundo desejo de cuidar, uma necessidade de oferecer conforto à sua alma ferida. Num breve instante, seus olhos encontraram os meus, um olhar rápido e calculista, como se avaliasse se eu a impediria de agir. Decidida, guiada por um impulso irresistível, ela correu em sua direção. Ao se aproximar, estendeu os braços e o abraçou com ternura, como se quisesse protegê-lo de toda a dor do mundo. O homem, surpreso, hesitou por um instante, mas logo se entregou ao abraço, encontrando ali um refúgio para sua alma.

Naquele momento, o tempo pareceu desacelerar. Uma senhora que passeava com seu cachorro parou para observar a cena, os olhos marejados de emoção. Um grupo de jovens ciclistas reduziu a velocidade, intrigado pelo que via. Melissa, com seu abraço puro e despretensioso, havia criado um oásis de amor no meio da frieza da cidade.

— Obrigado… Eu precisava disso.

Melissa sorriu e alisou delicadamente a manga desgastada do casaco dele, como quem tenta aliviar uma ferida invisível.
— Está tudo bem agora — disse ela, com uma voz tão leve quanto firme, carregada de uma certeza que apenas corações puros conseguem transmitir. Em seguida, retornou de imediato para sua posição inicial no balanço, como se nada tivesse ocorrido.

Naquele instante, algo pareceu se ajustar. Aquele homem, antes despercebido, tornou-se notado. O abraço de Melissa criou uma brecha, e logo outras pessoas começaram a se aproximar, com gestos e palavras de gentileza. A praça, antes comum, ganhou um toque de humanidade.

Eu, que observava tudo de longe, senti-me tocado pela simplicidade e profundidade daquele gesto. Lembrei-me dos ensinamentos que moldaram minha visão de mundo, do cuidado em "não falar com estranhos", em evitar o desconhecido. Mas Melissa, com sua inocência e amor incondicional, mostrou-me que, mesmo com esses princípios enraizados, é possível reavaliar o contexto e perceber que o outro pode não ser uma ameaça, mas sim um ser humano que precisa de carinho e atenção.

Melissa também cresce sob essas regras invisíveis. Contudo, crianças com Síndrome de Down carregam algo em sua essência que transcende essas convenções. São guiadas por um amor puro e incondicional, que ignora, de forma proposital, as barreiras que erguemos entre nós. Para Melissa, não há distinções: todos — pessoas, animais, conhecidos ou desconhecidos — são dignos de sua atenção e carinho.

Aquele abraço nos faz questionar quantos "estranhos" cruzam nossos caminhos diariamente, invisíveis aos nossos olhos, carregando suas próprias histórias e dores. Na dinâmica impessoal da cidade grande, a tendência é que as pessoas se tornem meras figuras de fundo, e, ao nos depararmos com a fragilidade alheia, muitas vezes escolhemos ignorar, até mesmo mudar de calçada.

Melissa nos ensina que o amor não enxerga barreiras, não faz distinção de raça, classe social ou aparência. O amor simplesmente é. Ele se manifesta na doação, na compaixão, na capacidade de ver o outro com o coração.
Aquele abraço não foi apenas um gesto. Foi uma lição. Uma lembrança de que, enquanto minha geração foi treinada a desviar o olhar, Melissa nasceu para ver. E, no seu ver, há amor.
Roni Martins
Enviado por Roni Martins em 22/02/2025
Alterado em 19/03/2025
Comentários
M
Maria Eronilda Figueiredo
Grande lição pra todos nós!
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